segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Destino Pode Esperar

"Destiny can Wait": motto dos pilotos polonêses durante a Segunda Grande Guerra

(Autor: Toni Novak - 2006)




01 de Setembro de 1939. 4:45 da manhã. O Navio alemão Schleswig-Holstein abre fogo contra a guarnição polonêsa de Westerplatte na cidade livre de Danzig, juntamente a um ataque por terra. No ar, aproximadamente às 6:30 da manhã, uma força de 80 bombardeios He-111 escoltados por 20 Bf-110 se dirige a Varsóvia.

Era o início da Segunda Guerra Mundial e o início do conflito na Polônia. Para muitos, uma guerra perdida para aquele país desde o início. Escreveu o historiador Raymond Cartie: “é natural do povo polonês que já tenha perdido a Guerra mesmo antes dela começar”. O exército e a força aérea polonêsa são várias vezes mostrados como inábeis. Teriam enfrentado com cavalos os Panzer alemães enquanto a força aérea teria sido destruída no solo. Na verdade, esta é uma concepção distante da realidade,e em parte fruto de propaganda nazista mentirosa. Tendo reemergido como país novamente em 1918 a Polônia vinha se esforçando para reconstruir sua indústria a partir do zero. No período entre 1936 – 39, os gastos com o desenvolvimento da indústria militar equivaleram a 70% de todo o investimento interno. A indústria aeronáutica, concentrada no sul do país, começava a mostrar resultados. Desse esforço, sobressaíram-se alguns tipos de aeronaves de combate raramente lembradas e pouco conhecidas fora da Polônia atualmente.

O Indústria PZL, sediada em Mielec, contava com o brilhante engenheiro Zygmunt Puławski. Nascido em Lublin, formou-se em 1925 na Universidade de Varsóvia. Depois de um período na França trabalhando na Breguet, Puławski voltou para a Polônia e juntou-se então à Oficina de Aviação Central (CWL que depois se tornaria a PZL: Panstwowe Zakłady Lotnicze - National Aviation Establishment). Atendendo a um requerimento do governo, Puławski projetou um caça chamado P.1 em 1929. Esse monoplano incorporava uma invenção de Puławski, a asa de gaivota, na qual as asas convergem para o centro da fuselagem, perto da raiz, dando ampla visão para o piloto, ao mesmo tempo em que mantém a configuração de asa alta. Esse tipo de asa ficou conhecido como asa de Puławski, ou também asa polonêsa. Diferentemente de vários aviões da época, o caça de Puławski era inteiramente construido de metal, e o seu trem de pouso era inédito, com amortecedores hidráulicos independentes. O avião era muito manobrável e extremamente resistente, podia realizar qualquer tipo de manobra violenta sem risco de rompimento das asa. Ele deu origem a uma série de modelos subseqüentes. Em 1930, o segundo protótipo, pilotado pelo Col. Kossowski, ganhou 8 de 15 provas na Competição Internacional de Caças de Bucareste, batendo seus oponentes da Inglaterra, França, Alemanha, Holanda e Checoslováquia.

O protótipo P.6, mostrado em 1930 no salão de Paris, chamou atenção mundial. Em 1931, pilotado por Bolesław Orliński, o caça de Puławski ganhou outra competição Internacional de caças, desta vez em Ohio, na International Air Races de Cleveland. Infelizmente Puławski perderia a vida num acidente com seu avião anfíbio PZL 12, em 1931, aos 29 anos de idade. O próximo modelo P.11 foi terminado por outro engenheiro polonês Wsiewolod J. Jakimiuk. A força aérea polonêsa (Lotnictwo Wojskowe) encomendou e recebeu 175 aviões entre 1934 e 1936 do modelo P.11, com motor Brystol Mercury, fabricado sob licença.

PZL P.7

O próximo desenvolvimento da série, e também o mais avançado, seria o P.24. Em 28 de Junho de 1934 o segundo protótipo desta versão bateu o recorde mundial de velocidade para caças com motores radiais: 414 Km/h. Esse modelo também tem o diferencial de ter sido um dos primeiros caças equipados com 2 canhões de 20 mm. Com o motor Gnome-Rhone de 970 HP, ele atingia 16400 pés em 5 minutos e 40 segundos (o teto máximo era de 34450 pés). Tinha a cabina fechada e com um dispositivo novo para época: um tanque de combustível alijável. Nessa época a PZL podia afirmar ser o fabricante de um dos caças mais eficientes do mundo. A Força Aérea Polonesa foi a primeira força aérea do mundo a operar somente caças construídos integralmente de metal.

O P.24 foi um grande sucesso de exportação, sendo vendido para Turquia, Bulgária, Romênia e Grécia. Ele provaria seu valor em 1940 – 41, durante a invasão da Grécia pela Itália, onde 24 PZL P.24 pilotados por aguerridos pilotos gregos obtiveram 40 vitórias ar-ar. Essas vendas de exportação eram importantes para a economia polonesa, que continuava com problemas sérios. Sendo assim, não é de se espantar que a Polônia tenha buscado essas vendas mesmo quando o modelo em questão não era adotado pela própria força aérea polonêsa, que considerara o P.24 um modelo intermediário e já previa que o futuro seria dos monoplanos cantilever de asa baixa.

PZL P.11

A pedido do governo, o engenheiro Wsiewolod J. Jakimiuk projetou o primeiro avião polonês de configuração mais moderna, o PZL P.50 Jastrząb (Falcão), muito semelhante ao Severski P-35 Americano. Desse, apenas o protótipo vôou quando a Guerra começou (e foi abatido por engano pela AAA amiga), e outros 30 estavam em fase de montagem. Jakimiuk escapou da Polônia em 1940, indo posteriormente para o Canadá, onde foi responsável pelo projeto do treinador de Havilland DHC1 Chipmunk. O engenheiro Jerzy Dabrowski comandou em 1939, na PZL, o projeto de um caça monoplano de asa baixa, o P.62. Teria cabine pressurizada e nada menos do que 8 metralhadoras nas asa e um canhão de 20 mm no cubo da hélice. Durante o verão de 1939 um modelo foi testado no tunel de vento do Instituto Aerodinâmico (Instytut Aerodynamiczny). A avançada asa tinha um perfil laminar.

Movido pelo motor Hispano-Suiza 12Z, o P.62 atingiria 700 Km/h. Mas teria sido colocado em produção tarde demais: o protótipo deveria voar em 1940 e a produção em série em 1942. Todos os dados do projeto e um mockup escala 1:1 foram capturados pelos alemães após setembro de 1939.


PZL P.62

PZL P.50 Jastrząb

Mas o melhor avião a ser produzido antes de 1939, e o orgulho da engenharia aeronáutica polonêsa, foi o avançado bombardeio Médio PZL P.37 Łos (“Alce”). Procurando um substituto para o obsoleto Fokker F.VIIb, o Departament Aeronautyki (Departamento de aeronáutica) emitiu um requerimento para um bombardeio capaz de carregar 2000 Kg de bombas acima de 350 Km/h a uma distância de 1200 Km. O projeto ficou a cargo novamente de Jerzy Dabrowski.

O avião (que apresentava uma excepcional limpeza aerodinâmica) tinha uma seção elíptica na fuselagem que propiciava uma pequena área frontal e baixo arrasto, mas não deixava espaço para bombas. A solução foi usar o espaço dentro da asa entre as naceles do motor e a raiz da asa para acomodar também a carga. A estrutura era toda de metal, usando um método comprovado de construção elaborado por Franciszek Misztal, que resultou numa estrutura leve e resistente. O perfil das asas foi modificado, tinha que ser espesso, dada a necessidade de se aproveitar o maior volume interno possível e ao mesmo ter um baixo arrasto, o que foi conseguido, resultando num perfil com características laminares, muito antes das primeiras aeronaves oficialmente com perfis laminares aparecerem. O trem de pouso desenhado e patenteado por Piotr Kubicki, diferentemente dos aviões da época e antecipando os aviões do futuro, tinha duas rodas em cada unidade. Comparativamente com o He-111, o P.37 era melhor: levava 2595 Kg de bombas (contra 2000 Kg do He-111) a 412 Km/h por 1750 Km de distância (250 Km a mais que o He-111). Devido à sua capacidade de carga maior e velocidade, o P.37 atraiu bastante atenção internacional. Mas a produção fôra concentrada para entregas domésticas, cujas encomendas foram de 124 aeronaves no total da versão P.37B (como motor Pegasus XX inglês). A produção atingiu o máximo de 14 unidades por mês em 1938. Em 1939, as entregas totalizaram 90 aeronaves devido a erros e atrasos, e alguns acidentes com aeronaves por problemas mecânicos que tomaram algum tempo para serem resolvidos, além de quedas misteriosas. Dessas, apenas 36 estavam em condição de combate imediato, na Brigada de Bombardeio (Brygada Bombowa) em 1 de Setembro de 1939. Apesar do projeto ser considerado um dos melhores, ou senão o melhor bombardeio médio da época, a capacidade de produção polonesa não podia competir em termos numéricos com a alemã.


PZL P.37 Łos


O panorama do desenvolvimento aeronáutico futuro era o seguinte: ja havia sido iniciado os testes estáticos do sucessor do P.37, o P.49 Mis. Havia um protótipo de uma nova aeronave de ataque ao solo P.46 Sum. O caça pesado P.38 Wilk deveria ter sido um concorrente do Me 110, mas mostrou-se pesado e mais lento então havia se iniciado a escolha de um possível substituto que seria escolhido entre dois projetos: o P.48 Lampart ou o P.54 Rys. Deveria ter sido inicaida a produção de um caça semelhante ao Hurricane chamado P.45 Sokol.


PZL P.38 Wilk


Para um país novo, muito havia sido conquistado. Ao contrário do que diz o mito de que o Exército Polonês havia combatido os Panzers com cavalos, em 1939 a Polônia tinha uma força mecanizada maior que a americana na época. O carro de combate 7TP desenvolvido localmente provaria ser um carro de combate melhor do que os Panzer I e II, e capaz de fazer frente ao Panzer III e IV. O problema era a paridade numérica. Outro desenvolvimento importante em outra área foi a fabricação sob licença do excelente canhão anti-tanque Bofors de 30 mm, do qual grande quantidade foi exportada para a Inglaterra, novamente ajudando a economia interna. Apesar de todos os esforços, a recente indústria polonesa não poderia fazer frente à capacidade de produção alemã, a maior da Europa.

A Polônia não havia sido pêga de surpresa. Isso é pouco provável: os poloneses haviam logrado desencriptar as mensagens alemãs codificadas pela máquina Enigma. Os vôos alemães de reconhecimento provavelmente não passaram desapercebidos. A mobilização das tropas se iniciara em 25 de Agosto, sob pressão contrária da Inglaterra e da França, que não queriam que os poloneses “provocassem os alemães”.

As forças Armadas polonêsas (Polskie Siłly Zbrojne) tinham treinado vários cenários de invasão: uma invasão alemã (chamada Plano N), uma invasão Soviética (Plano R) e mesmo uma invasão conjunta (Plano N + R). Em qualquer caso, o rápido apoio da França e Romênia era fundamental para o sucesso. O comando polonês estava perfeitamente ciente de que não haveria possibilidade de enfrentar a Alemanha sozinho. De acordo com a progressão dos combates, uma cabeça de ponte deveria ser feita ao Sul, perto da fronteira com a Romênia, de onde reforços aliados deveriam chegar (inclusive um carregamento de caças Spitfire já preparado e aguardando na Inglaterra). Uma invasão imediata da Alemanhã pela França na fronteira oeste daquele país deveria ao menos aliviar a pressão das defesas polonesas, que poderiam se reagrupar e se reorganizar, jogando a Alemanha numa (difícil) guerra em duas frentes.

A força de invasão alemã era composta por cinco exércitos (mais os reservas) com quatorze Divisões de Infantaria, uma Divisão Panzer e duas Divisões de Montanha, todos comandados pelo General Walther von Brauchitsch. No total, eram 1.850.000 homens, aproximadamente 3.100 carros de combate, 1.000 peças de artilharia e 2.085 aviões. Toda a força fora divida em três linhas principais de ataque, todas convergindo para Varsóvia.

Contrapondo essa força de invasão, os polonêses tinham 1.000.000 de homens (a mobilização não estava completa quando a guerra começou, sendo o total depois aumentado para 1.350.000), 900 carros de combate (apenas 100, aproximadamente, do modelo 7TP mais moderno e eficiente), 4.300 peças de artilharia e 435 aviões.

Havia 7 exércitos: Modlin - General Krukowicz-Przedrzymirski, Pomorze - General Bortnowski, Poznan - General Kutrzeba, Łodz - General Rommel, Krakow - Genereal Szilling, Lublin - General Piskor e Karpaty - General Fabrycy, mais os reservas (3 exércitos) totalizando trinta e nove Divisões de Infantaria, onze Brigadas de Elite de Cavalaria, três Brigadas de Montanha e duas Brigadas Motorizadas. O comandante era o Marechal Edward Smigły-Rydz. Os alemães estavam atacando numa extensão de 1.600 Km dos 3.000 Km de fronteira a oeste. A Polônia estava desprotegida nos flancos (Prússia Oriental ao norte e Checoslováquia ao sul).

Ao contrário de uma concepção disseminada até hoje (e originada na propaganda alemã da época), a força aérea polonêsa não havia sido pêga de surpresa e destruída no solo.

A Primeira Batalha Aérea da Segunda Guerra Mundial
Antes de 01 de setembro, a força aérea polonesa tinha sete esquadrões de caça (Dywizjon Myśliwski), cada um com vinte caças. Cada esquadrão estava divido em duas Eskadra. Três Eskadrilles operavam o modelo mais antigo P.7, e as outras estavam equipadas com caças P.11a ou P.11c.
Todos os esquadrões estavam subordinados à estrutura do exército para fornecer suporte aéreo às operações, e apenas as unidades do I Regimento de Varsóvia (Esquadrões III/1 e IV/1) estavam ligadas à Brygada Poscigowa (Brigada de Caça), cuja tarefa era defender a capital. Um esquadrão foi reforçado com mais uma Eskadra Mysliwska (Esquadrilha de Caça) de P.7 vinda de Cracóvia, pouco antes do início do conflito.

Muitos pilotos eram veteranos da Primeira Guerra Mundial e da Guerra Soviético-Polonesa de 1920, tal como o Comandante Col. Stefan Pawlikowski. Varsóvia era a única cidade que contava com um sistema efetivo de alerta de intrusão aérea: observadores em postos avançados comunicavam o avistamento dos bombardeios para o comando central, que então acionava os esquadrões em bases de campo aberto espalhadas ao redor da cidade. Às 07:00 da manhã, o Col. Pawlikowski ordenou a decolagem de toda a brigada para a intercepção de oitenta He-111s do LG1 e KG27 “Boelcke”, escoltados por vinte Bf-110 do I(Z)/LG 1 na região de Bugo-Narew. O feroz combate que durou 40 minutos envolveu ao todo 154 aeronaves.

P.11a da Eskadra 142

O primeiro piloto a derrubar um bombardeio inimigo (o primeiro de quarenta e quatro He-111 e trinta Do-17 derrubados naquela guerra pela Polônia) foi o Tenente Aleksander Gabszewicz, pilotando um P.11 do Esquadrão IV/1. O He-111 rumou para o norte e caiu, batendo com a asa numa árvore e matando todos os seis tripUłantes. Na área de Wyszkow, o Segundo Tenente Jerzy Palusinski lançou-se sozinho contra doze bombardeios da Luftwaffe. Após derrubar um bombardeio, ele sofreu um ferimento na mão, e só escapou de algo mais sério pois o projétil acertou seu relógio de pulso. Outros quatro pilotos derrubaram He-111 naquele combate. A perda polonesa foi um P.11 de Bołesław Olewiński, que saltou de pára-quedas com queimaduras e ferimentos. Alguns outros caças fizeram pousos forçados. Muitos He-111 não derrubados estavam avariados, mas também muitos caças P.11 atingidos precisariam de reparos. Os bombardeios alemães foram impedidos de alcançar Varsóvia, e o que deveria ser Der Spaziergang uber Warshau (“um passeio sobre Varsóvia”) se tornou uma dolorosa fuga das aeronaves alemãs para a Prússia Oriental.

Um outro grupo de ataque de bombardeios He-111 e Do-17 dirigiu-se a Varsóvia às 12:00. Duas seções da Escadrille 112 interceptaram os atacantes sobre Vilanow. O Tenente Stefan Okrzeja disparou suas duas metralhadoras MG de 7.9 mm sobre um Do-17 que explodiu no ar. Pedaços do bombardeio puderam ser retirados de entre os cilindros do motor radial de seu caça P.11 após o retorno ao solo. Novamente os atacantes rumaram para a Prússia Oriental sem chegar a Varsóvia. Um terceiro grande combate ocorreu às 16:30, sobre Modlin. Desta vez, eram trinta He-111 e Do-17, nove Ju-87 escoltados por vinte Bf-109 e Bf-110. O Tenente Gabszewicz, após ser abatido, era alvo de um furioso Bf-109 que fez vários furos no velame de seu pára-quedas, até que foi salvo pelo Segundo Tenente Tadeusz Sawicz que forçou o Bf-109 a se evadir. O Cadete Jerzy Radomski, depois de abater um Bf-109, disse, surpreso, ter abatido uma “avionette” (avião de passeio)! O embate fora um encontro de uma nova geração de caças monoplanos (Bf-109) pilotados por pilotos alemães (exceto pelos veteranos da Guerra Espanhola), ainda em curva de aprendizado, contra um avião de geração anterior de cockpit aberto e trem de pouso fixo. Porém, os pilotos poloneses estavam, na época, entre os mais bem treinados da Europa.

"Os pilotos poloneses eram provavelmente os mais bem treinados pilotos do mundo naquela época. Devido ao seu pequeno tamanho, a Força Aérea Polonesa selecionava muito bem seus candidatos, principalmente aqueles destinados às unidades de combate. O programa de treinamento na Escola de Cadetes de Deblin e na Escola de Vôo Avançado de Grudziadz-Ulez era extremamente exigente, tanto no que dizia respeito ao vôo em si como também nos treinos de tiro aéreo, com constante competição entre os cadetes". [Fonte: Aviação de Outrora (Editora Caiçara)]

O caça P.11 (apelido de Jedenastka, ou décimo-primeiro) perdia em razão de subida, teto máximo e velocidade máxima para o novo caça da Messerchmitt, mas tinha melhor razão giro e ótima visibilidade para o piloto graças à asa de gaivota (embora faltando blindagem). Ainda demoraria um certo tempo para os alemães transformarem o Bf-109 na máquina de guerra que lhe granjeou toda a sua fama. Mesmo entre a Luftwaffe, o novo avião fora recebido com reservas em certos círculos, e ninguém menos que o ás Adolf Galland criticou severamente a falta de visibilidade a ré do novo caça. Durante um vôo de demonstração por bases alemãs em 1936, um Bf-109 da fábrica havia levado uma “sova” de biplanos Heinkel He 51. Os pilotos eram críticos até mesmo do cockpit fechado, dizendo que sem ele “podia-se sentir o cheiro do inimigo no ar”. Um outro exemplo dramático ocorreu em 9 de setembro durante a invasão: Jan Falkowski pilotando um treinador acrobático PWS-26 (motor Wright de 220 HP) foi perseguido por vários Bf-109! Sem sucesso em atingir o pequeno biplano, um dos Bf-109 acabou chocando-se contra o solo e explodindo, e em seguida os outros restantes abandonaram a perseguição.

Um combate de significação histórica aconteceu num campo de aviação de reserva em Balice. A 121 Eskadra Myśliwska (esquadrão de caça) havia acabado de ser realocada para lá vinda de Cracóvia, para dar suporte às operações do Regimento III/2 Pułk. Às 5:30 da manhã dois P.11 pilotados pelo Capitão Mieczyslaw Medwecki (o comandante do regimento) e o outro pelo Tenente Wladyslaw Gnys decolaram para interceptar uma grande número de bombardeios indo para Varsóvia. A 300 metros de altura, logo após a decolagem os dois P.11 são atacados um par de Ju87B Stukas do I/StG2 “Immelman”. Uttz. Frank Neubert pilotando um Stuka com matrícula “T6+GK” atirou contra o P.11 de Medwecki. O avião caiu e Medwecki morreu. O outro Stuka foi perseguido por Gnys, e após receber vários tiros evadiu-se, soltando fumaça pelas nuvens, mas conseguiu chegar ao campo de Nieder-Ellguth. Gnys vôou até a fronteira com a Alemanha e percebeu dois Do-17 do KG77 provavelmente voltando de uma missão a Varsóvia. Tendo a vantagem da maior altitude, Gnys mergulha em direção aos bombardeios e após várias passadas ambos são abatidos, caindo na vila de Zurada, perto da cidade de Olkusz. Na volta para sua base ele encontrou mais um He-111 mas desta vez nada pode fazer pois suas metralhadoras estavam sem munição. O avião abatido pelo Uttz. Neubert seria o que se considera hoje a primeira vitória ar-ar da Luftwaffe na Segundo Guerra Mundial. O dia 01 de Setembro havia terminado com relativa vantagem para a Brygada Poscigowa no saldo geral: 10 aviões perdidos e 24 avariados. Do lado alemão, 16 aviões da Luftwaffe foram abatidos mais 5 prováveis e 10 avariados. Algumas poucas bombas caíram em Varsóvia, que continuava praticamente intocada. Enquanto havia caças para defender Varsóvia, eles conseguiram estar à altura do desafio de enfrentar a Luftwaffe. Mas aos poucos, as bombas alemãs causaram seu efeito acertando oficinas áreas onde havia aviões de reserva e centros de comunicação. O resultado foi que, além de já terem começado com inferioridade numérica, as aeronaves perdidas não podiam ser repostas, enquanto do lado alemão as ondas de ataque eram enviadas uma após a outra.

P.11c (matrícula 10, código “170-N” pelo rádio) da Eskadra 113 (“Águia-Coruja”) com o qual o Segundo Tenente Hieronim Dudwal abateria seu primeiro avião naquela campanha: um He-111.

No dia 2 de Setembro (e adiante), novamente Varsóvia seria alvo de ataques, mas desta vez os alemães mudaram de tática: no lugar de grandes números de bombardeios, pequenas formações vinham de todos os quadrantes sobre a capital, enquanto os Bf-109 e Bf-110 faziam varreduras em todos os lados. Isso obrigava os defensores a dispersar e enfrentar o inimigo também em todos os quadrantes. Apesar dos bravos esforços, e impossibilitados de repôr os aviões avariados, os caças poloneses logo não conseguiram evitar que as bombas caíssem em Varsóvia. Mesmo assim, até 6 de Setembro, quarenta e sete aviões alemães foram abatidos. Fora da área de Varsóvia, os esquadrões de caça não dispunham de uma rede de observadores, o que obrigava os caças a voarem missões de oportunidade (chamadas “emboscadas”) sem efeito útil, sendo os P11 mais lentos do que os aviões alemães, não importando quão rápido decolassem. Alguma cidades menores, mesmo não tendo instalações militares ou industriais, foram alvo de bombardeios devastadores: Wielun, no dia 1 de Setembro, teve 70% da cidade destruída (inclusive o hospital, apesar deste ter uma enorme cruz vermelha pintada no teto). Quatro Ju87 foram derrubados pela AAA neste bombardeio. Frampol (3000 habitantes), em 13 de Setembro, foi aniquilada apenas como um exercício para as tripulações.

Os acontecimentos não foram menos dramáticos para a Brigada de Bombardeio e seus P.37. A brigada passou os dois primeiros dias em prontidão, aguardando ordens que nunca vieram. Embora tivesse a capacidade para tal, a Polônia tinha prometido a seus aliados que não iria bombardear nenhum alvo ou cidade na Alemanha. Então, no dia 3 de Setembro, decidiu-se a atacar as colunas de Panzer e os carros de combate dos invasores com os P.37 da brigada conjuntamente a um outro tipo desenvolvido em meados dos anos 30: o P.23 Karas, uma aeronave de bombardeio e reconhecimento. Essas operações obtiveram sucesso em alguns casos, embora as perdas tenham sido altas (não havia caças disponíveis para escolta). A brigada conseguiu parar o avanço alemão em Czestochowa e Radomsko. A falta de combustível piorou as condições operacionais (este foi um problema alemão também, porém resolvido com suplementos adicionais de combustível vindos da URSS). Até o dia 16 de Setembro (último dia de operações da brigada) quarenta e sete P.37 foram utilizados, dez foram abatidos por caças, cinco pela AAA, apenas dois destruídos no solo e dez perdidos de outras maneiras. 119 toneladas de bombas foram lançadas.


P.37 Łos da Brygada Bombowa

A Batalha Terrestre
Na batalha terrestre, as forças armadas polonesas engajaram 80% das forças invasoras e estas lograram avançar aproximadamente 10 km além da fronteira no primeiro dia. No front diplomático, apelos dramáticos para que a França e a Inglaterra interviessem com operações aéreas contra a Alemanha foram feitos, a fim de aliviar a pressão no front polonês. Apesar dos acordos firmados que obrigavam as partes a intervirem de maneira limitada no primeiro dia de guerra, e de uma ofensiva de grande porte no 15o dia, a França não estava com pressa, mesmo tendo noventa divisões disponíveis contra vinte e cinco divisões de reserva alemãs (muitas de segunda linha), que guardavam a fronteira oeste. Na verdade, ela imaginava uma guerra contra os alemães apenas em 1940 ou 1941, e esperava que a Polônia resistisse à invasão por um ano (claramente uma visão de guerra de atrito tal como fora a Primeira Guerra Mundial). O problema é que o governo polonês não fora avisado disso. O caráter de rapidez da movimentação, típico da guerra mecanizada, fazia com que cada dia de defesa fosse importante.

Um mito repetido a respeito dos poloneses é que Tinham realizado cargas de cavalaria contra carros de combate. Isso nunca ocorreu: a cavalaria polonesa era usada apenas como infantaria móvel, e os combates que não eram contra uma infantaria a pé eram realizados com a tropa desmontada e entrincheirada. Tradicionalmente, os poloneses tinham fornecido a cavalaria de elite para as tropas de Napoleão. Essa força tinha alta estima entre a população, principalmente os Ułans. A tradição de montaria remontava aos cavaleiros medievais. O episódio que deu origem ao mito aconteceu na inconclusiva batalha de Krojanty, no dia 01 de Setembro. O Coronel Mastalerz, vendo tropas alemãs numa floresta, decidiu comandar uma carga (aliás, uma medida pouco usual na guerra) aproveitando a surpresa. O ataque foi um sucesso e até interrompeu o avanço da infantaria na região. Porém, um grupo de carros de combate próximo ouviu os disparos e abriu fogo de metralhadora contra os Ułans. Um jornalista italiano, no dia seguinte, viu a cena com os corpos próximos aos carros e escreveu erroneamente uma matéria dizendo que os poloneses haviam realizado uma carga de cavalaria diretamente contra os Panzers, elogiando a coragem e o sacrifício do soldado polonês numa luta desesperada. A propaganda alemã logo tratou de mostrar o falso ocorrido como uma demonstração da estupidez dos comandantes poloneses contra um inimigo tecnologicamente superior. O General Heinz Guderian escreveu em suas memórias que a infantaria a pé entrou em pânico devido ao medo de cargas de cavalaria polonesa e que isso chegou a atrasar a movimentação da 20° Divisão de Infantaria Mecanizada, o que só foi evitado com sua intervenção pessoal nas tropas (a maior parte da força mecanizada nesta invasão avançava conjuntamente à infantaria a pé, de maneira tradicional, e não sozinha; esse é um dos aspectos que elucidam que aquela guerra foi apenas parcialmente bem sucedida em termos de uma blitzkrieg ideal totalmente mecanizada).

O combates nas fronteiras trouxeram muitas surpresas desagradáveis para os alemães, mas a supremacia destes acabava por prevalecer: na Pomerânia, a ala norte do exército Pormozore fora destruída. No sul, abriu-se uma brecha de 100 km entre os exércitos Kraków e Jydu, depois que uma divisão inteira foi destruída. Os rompimentos das linhas de defesas eram rapidamente aproveitados pelas forças mecanizadas que avançavam então para o centro (em direção aos Rios San e Vístula) mais rápido do que as defesas conseguiam retornar para trás. Para piorar a situação, não havia comunicação entre muitas unidades e o Comando Central, ou mesmo entre exércitos. Os Exércitos Pormoroze, Poznać e Jydu em volta do triangulo Łodz – Plock – Varsóvia (retornado das regiões da fronteira) teriam que ter atravessado as forças alemãs para recompôr uma defesa nos rios Bug, Vistula e San.

A luta para estabelecer uma ligação entre o Reich a Prússia Oriental (no chamado corredor polonês) prosseguiu até 04 de Setembro, não antes de muitos reveses: o 2o Regimento Naval havia recapturado Kolibki, causando pesadas baixas para o inimigo, e de lá lançado surpreendentes ataques à retaguarda das forças alemãs, matando ou fazendo muitos prisioneiros na região de Osowa e Wysoka. Somente após a chegada de reforços e muitas baixas a cidade de Kartuzy é que foi tomada e a cidade de Wejherowo, em 8 de Setembro. Os poloneses recuaram até a região de Oksywie (deixando assim a cidade de Gdynia próxima livre de horríveis combates urbanos), onde, cercados, sofreram um pesado bombardeio aéreo e de artilharia. A defesa foi incessante até o último disparo, após o qual o comandante Coronel Dabek tirou a própria vida com um tiro (o saldo foi de 2000 mortos, 7000 feridos – toda a tropa - em mais de 110 enfrentamentos na região que tinha aproximadamente 4 km2). O heroísmo polonês instilava admiração até nos nazistas. Na descrição oficial alemã desta batalha consta o seguinte depoimento:

“Os soldados poloneses lutaram galantemente, e não pouparam sangue. A área de Gdynia e Danzig foi defendida pela elite das forças armadas polonesas. Estas eram unidades jovens e inspiradas da marinha e do exército, que lutaram admiravelmente. No platô de Oksywie encontramos trincheiras cheias de soldados poloneses mortos, que cairam às centenas no lugar onde lutavam, com os fusis ainda em suas mãos. Era evidente que eles lutaram até o amargo final”.
A possibilidade de um ataque aliado no oeste arrepiava o OKB alemão. O intérprete do escritório de Assuntos Estrangeiros Alemão, Dr. Paul Schmidt, relembra quando leu o ultimato inglês em 03 de Setembro para o Governo alemão retroceder a invasão ou enfrentar um estado de Guerra entre a Inglaterra e a Alemanha:

“Quando entrei na sala Hitler estava sentado à sua mesa e Ribbentrop, estava em pé ao lado da janela. (...) parei a certa distância da mesa de Hitler e então lentamente traduzi o ultimato britânico. Quando acabei o silêncio era completo. Hitler continuava sentado, imóvel e com o olhar fixo à sua frente. (...) Depois de um intervalo que pareceu uma eternidade, ele se voltou para Ribbentrop, que continuava perto da janela. 'E agora?', perguntou Hitler com um olhar furioso, como se culpasse o Ministro do Exterior por tê-lo induzido ao erro sobre a provável reação inglesa. Ribbentrop respondeu calmamente: 'Presumo que os franceses enviarão um ultimato similar dentro de uma hora' ”

Goering concluiu: “Se nós perdermos essa guerra, Deus tenha piedade de nós!”. Tal fora a jogada para a conquista da Polônia: enquanto o grosso da Wermatch estava lutando, poucas divisões realmente capazes de combate guardavam a fronteira oeste alemã.

Mais ao sul, o General Tadeusz Kutrzeba, Exército Poznać, ordenou um ataque na região do Rio Bzura. Valendo-se da surpresa, o ataque aniquilou grande parte da 30a Divisão de Infantaria Alemã, jogando o inimigo 20 km para o sul. Instantaneamente, as cidades de Leczyca e Piatek foram liberadas e ficaram em perigo as posições alemãs em Strykow e também as áreas periféricas da então já capturada Łodz. A infantaria alemã ficou exposta (atrás das forças mecanizadas) na região Skierniewice - Lowicz – Sochaczew, e enquanto a Luftwaffe estava lutando em outras áreas, seis divisões de infantaria polonesa e mais duas brigadas de cavalaria lutaram eficientemente contra sete divisões de infantaria alemã. Mas os alemães podiam chamar os aviões e pedir reforços (que vieram: mais 3 divisões mecanizadas ). Já o General Kutrzeba não dispunha de reforços e reservas e não teve alternativa a não ser desistir de recapturar Łodz, dirigindo-se até Kutno para procurar um outro meio de chegar a Varsóvia. Esta foi a maior batalha da guerra custando aos alemães 1500 mortos.

Ao atingir Varsóvia no dia 9, com aproximadamente 300 carros de combate, as forças alemãs foram repelidas devido à defesa ferrenha e um cerco começou. Homens, mulheres, escoteiros, todos pegaram em armas para defender a cidade. Treze milhas de trincheiras foram cavadas e móveis, carros e ônibus foram usados como barricada. Uma chuva de projéteis, granadas e bombas improvisadas caiam sobre os alemães a cada tentativa de entrar na cidade. Enquanto isso, umas poucas divisões francesas adentraram o território alemão por pouco tempo e sem encontrar resistência apreciável. O Comandante Francês General Maurice Gamelin mandou uma mensagem mentirosa para o embaixador polonês no dia 10:

“Mais da metade de nossas divisões em ação na frente nordeste está engajada em combate. Além das nossas fronteiras os alemães opõem uma feroz resistência. (...) A ação aérea está ocorrendo junto com operações terrestres. Sabemos que temos contra nós uma parcela considerável da força aérea alemã. Portanto, fui além de minha promessa de tomar a ofensiva com o grosso das minhas forças no décimo sétimo dia após a mobilização. Não pude fazer mais.”

Na verdade a resposta dos aliados havia sido praticamente nula. Nenhuma unidade alemã fora desviada da Polônia para qualquer frente no oeste, que realmente nunca existiu. No dia 12 de Setembro, o Ministro de Relações Exteriores Józef Beck mandou a seguinte mensagem para seus embaixadores em Paris e Londres:

“O moral das nossas forças é bom. Duros combates continuam, apesar da superioridade inimiga. Todos os que conhecem a situação concordam que somente a inatividade das forças aéreas aliadas, assim como a atuação vagarosa dos franceses em terra, torna a situação perigosa para nós devido à perda de território grande demais e os danos à nossa indústria de armamentos. Por favor, tome providências com os membros do governo, a oposição e a imprensa”.

Tropas do exército Małopolska, então em recuo e tendo conseguido evitar serem cercadas, chegaram na cidade de Lwów que por volta do dia 12 estava sendo cercada por forças alemãs. Nessa altura o Comando Central havia recuado para perto da fronteira da Romênia. A cidade de Lwów era vista como ponto chave no Plano de Cabeça-de-Ponte Romena, de onde reforços aliados deveriam chegar. A situação era crítica e a defesa da cidade quase sucumbiu, não fosse pela chegada do 205o Regimento de Infantaria (Major Kraus), que controlou a situação, embora com a perda de algumas áreas periféricas da cidade. Reforços alemães também chagariam, mas a defesa da cidade crescia depois da chegada do Grupo Independente Grodno, ao ponto do comandante polonês General Władysław Langner poder atacar além de defender. Assim, tropas alemãs em vilarejos ao redor foram atacadas: batalhões sob o comando do Coronel Smreczyński tomaram a vila de Pirogowka, enquanto a 10a Cavalaria Blindada, comandanda pelo Coronel Stanisław Maczek, atacava a retaguarda alemã nos morros de Zamarstynow.


Video sobre o PZL-23B Karaś


Mas no dia 17 de Setembro, um acontecimento fez com que o Comando Supremo terminasse por desconsiderar completamente o plano da Cabeça-de-Ponte Romena (além da paralisia aliada): a URSS invadia a Polônia pelo leste, cumprindo sua parte secreta do acordo Ribbentrop-Molotov. As forças polonesas de defesa do leste, Korpus Ochrony Pogranicza (KOP), receberam ordens de recuar e não entrar em combate com os russos. Mas o confronto foi inevitável em vários lugares. Na cidade de Grodno, a defesa durou dois dias antes do centro ser destruído pela artilharia soviética. Em Lwów, a situação estava complicada: cercada por forças alemãs cada vez maiores, a cidade também estava sendo ameaçada por tropas soviéticas que se aproximavam. Era óbvio que, ainda que os alemães não tivessem conseguido tomar a cidade, a defesa não poderia durar para sempre. Aliás, essa era mais ou menos a situação por todo o país: as cidades cercadas não poderiam manter suas forças indefinidamente. Tropas e unidades recuando eram cercadas e destruídas, seus combatentes debandandavam por falta de munição e para escapar para a Romênia. Em Lwów, o chefe-de-gabinete da Comando de Defesa da Cidade Tenente-Coronel Kazimierz Ryziński sugeriu render a cidade aos soviéticos. Quando o Comandante General Langner encontrou os representantes soviéticos, disse: “We are in war with the Germans - the city has been fighting gallantly for ten days. They, Germans, are the enemies of the Slavonic peoples. You are Slavs.” Nas florestas perto da cidade de Szack (tomada por blindados Soviéticos), o comandante do KOP General Wilhelm Orlik-Rueckemann ordenou o posicionamento de tropas a fim de combater as forças russas. Às 8:00 da manhã, uma unidade blindada (composta na maioria por tanques T-26), lançou um ataque direto contra os poloneses. Estes esperaram até estarem bem perto (cerca de 500 m) e abriram fogo ao mesmo tempo com os canhões anti-carro Bofors 37 mm. Logo em seguida, a infantaria avançou coberta pela artilharia de 75 mm. Toda a unidade russa foi destruída e os poloneses capturaram o Quartel General local. Uma unidade polonesa em Mielnik, onde estava a Briagada Polesie, foi capturada pelos russos, que criminalmente executaram todos os oficiais poloneses no local. Na Inglaterra, o chefe da missão militar polonesa Gen. Mieczysław Norwid-Neugebauer desabafava com um representante do governo inglês: “A Inglaterra não cumpriu até agora suas obrigações porque durante 14 dias de guerra fomos deixados à nossa própria sorte, e o que foi enviado como resultado da visita do General Clayton em maio nunca chegou à Polônia”. Ele falava sobre material e reforços para o plano da Cabeça-de-Ponte Romena, que nunca chegaram. O embaixador americano em Paris anotava as discussões entre os primeiros ministros da Inglaterra e da França sobre o que fazer no conflito: “Daladier estava realmente chocado com o egoismo cínico da atitude de Chamberlain sobre o bombardeamento da Polônia e com sua recusa em usar os modernos, excelentes e numerosos bombardeiros ingleses para bombardear alvos militares na Alemanha”.

Depois do dia 17, o Comando Supremo polonês cruzara a fronteira com a Romênia e a ordem era que o restante das forças também o fizessem para que se reorganizassem na França. Enquanto a Inglaterra e a França trocavam acusações sobre o que fazer, desde o dia 01 de Setembro a Holanda, a Islândia, Portugal e a Suécia haviam declarado sua neutralidade no conflito. No dia 2, a Bélgica, a Holanda e a Noruega fizeram o mesmo. No dia 4, a Romênia (por pressão alemã) e no dia 5 os EUA. O mundo virava a cara para um conflito que iria envolvê-lo por inteiro. A França teria, por acordo, que dar droit de residence ao governo polonês. E à Romênia, sofrendo pressão do governo alemão, daria informalmente droit de passage (não sem antes prender temporariamente todos os mebros do Comando Militar e do Governo). No mesmo dia 17 de Setembro, a Brygada Bombowa cruzaria para a Romênia escapando com dezessete P.37 remanescentes (dos oitenta e seis originais) e dezesseis P.23 Karas (de sessenta e quatro iniciais). Trinta e seis P.11 também escaparam para a Romênia. Hiltler, furioso por Varsóvia ainda não ter sido tomada, ordenou que 450 aviões realizassem um bombardeio terrorista na cidade em 25 de Setembro. No dia 26, as tentativas de tomar a cidade foram repelidas. Mas no dia 28 a cidade capitulou. A decisão foi tomada principalmente pela falta de munição e pela situação dos civis: não havia mais comida e a cidade sofria uma crise de epidemias. Para os poloneses, o dilema nunca fora a superioridade do inimigo mas a falta de suprimentos e reforços: qualquer vitória teria tido vida curta.

No dia 2 de Outubro, a Península do Hel se renderia após um mês de uma resistência épica. A guarnição era composta de 2000 soldados comandados pelo Commodore Włodzimierz Steyer. Do dia 1 até o dia 9, a península sofrera um bombardeio incessante de Stukas. No dia 3 de setembro, dois destróiers alemãos travavam um combate contra destróiers poloneses ancorados e contra a artilharia de costa. Recebendo muitos danos, os dois navios alemães tiveram que se retirar da batalha. A partir do dia 10, ataques por terra começaram, entretanto sem sucesso. Um plano audacioso fora concebido pelos poloneses: transformar a península numa ilha, explodindo a ligação com o continente com muitas cargas de explosivos e torpedos enterrados, que seriam disparados por controle remoto. No dia 23 de Setembro, os navios alemães Schleswig-Holstein e Schlesien atacaram os navios poloneses e as defesas de costa, conjuntamente a uma nova onda de ataque da infantaria. A artilharia de costa polonesa (Bateria Henryk Laskowski) abriu fogo prontamente, e um duelo de artilharias começou, embora os alemães estivessem em vantagem com os canhões de 280 mm contra as armas de 152 mm dos poloneses. O Schlesien teve que se retirar depois que a segunda salva de tiros o atingiu. Os poloneses então se viraram contra o Schleswig-Holstein. Mas em terra, os alemães estavam avançando. O plano de explodir a ligação com o continente não dera certo: apesar de as crateras terem 2m de profundidade foram rapidamente recobertas. Após um mês de bombardeio, com a munição no fim e muitos mortos e feridos, a rendição foi inevitável. O último grupo combatendo no sudeste, o grupo de Operações Independentes Polesie, rendeu-se no dia 6 de outubro, enquanto tentava alcançar Varsóvia. No dia 25 de setembro, na batalha de Tomaszów Lubelski, as forças polonesas do norte foram destruídas.

A guerra terminara. A Polônia deveria ter agüentado 15 dias, e agüentou 39. Os alemães apostaram corretamente, mas vencer fora uma tarefa dura. Na batalha terrestre, mais de 30% dos blindados foram destruídos. De 2000 aeronaves usadas pela Lufwaffe, 258 foram destruídas e mais 263 danificadas (destas, somente 40% puderam voltar ao serviço). Das 258 destruídas, pode-se afirmar com absoluta certeza que mais de 100 foram abatidas por aeronaves de caça polonesas. A Lotnictwo Wojskowe perdeu 333 aeronaves e dessas aproximadamente 100 para caças inimigos. Isto é, um “kill-ratio” maior que 1:1 na arena ar-ar. Um resultado respeitável contra a maior potência militar do mundo e levando em consideração a diferença de forças. Documentos alemães mostram que, devido ao zêlo do soldado polonês em defender a pátria, a Wehrmacht havia usado mais munição do que usaria em 1940 para derrotar 4 exércitos aliados no oeste: França, Inglaterra, Bélgica e Holanda. Em 3 semanas de cerco em Varsóvia, os alemães usaram mais tropas do que as necessárias para romper a Linha Maginot. O significado disso é que a guerra contra a Polônia havia deixado os alemães exaustos. A munição restante daria para mais 15 dias apenas. Necessitariam de mais sete meses para atingir uma capacidade de combate equivalente ao início das operações. O mês de setembro de 1939 causou metade das perdas alemãs até a guerra contra a URSS. Enquanto isso, os exércitos aliados no oeste, mesmo com uma superioridade numérica de 3:1, desperdiçaram essa oportunidade, ganha a custo do sangue polonês. Alfred Jodl, do alto comando alemão durante a Segunda Guerra, disse, quando testemunhando no Tribunal de Nuremberg: “Se não caimos em 1.939, foi só porque as quase 110 divisões inglesas e francesas no oeste, as quais durante a campanha da Polônia enfrentavam 25 divisões alemãs, permaneceram completamente inertes.” O comandante das forças alemãs no oeste, Gen. Siegfried Westphal, admitiu que uma resoluta ofensiva aliada no oeste, em 1939, provocaria o colapso do regime hitlerista em menos de um ano. Não houve um rendição formal do governo polonês. Este continuou operando no exílio, juntamente a 80.000 poloneses que escaparam para se reorganizarem como um dos maiores exércitos aliados no exílio. Os poloneses estiveram na Batalha de Narvik, em 1940, realizando as primeiras vitórias aliadas no continente contra os alemães. Na Batalha da Inglaterra, Monte Cassino, Operação Market Garden e outras tantas batalhas os poloneses sempre derrotaram os alemães e sua contribuição foi importantíssima para o resultado final do grande conflito.



20 de Agosto de 1989, às 10:00 da manhã: 50 anos depois da guerra, dois combatentes de ambos os lados agora se encontram, não como inimigos, mas como amigos. Władysław Gnys e Frank Neubert. Os dois pilotos que realizaram as primeiras vitórias ar-ar dos Aliados e da Alemanha.



Fim da Batalha de Westerplatte: os alemães não conseguiam acreditar que tiveram que usar 3000 homens, mais de 300 (algumas fontes citam 400) mortos para tomar a guarnição polonesa na cidade livre de Danzig. Do lado polonês, 15 mortos e 53 feridos de 200 homens da guarnição, que se renderam por falta de água, comida e remédios. A população alemã local queria linchar os poloneses. O comandante alemão, Gen. Friedrich Eberhardt, não só evitou o linchamento como permitiu que o comandante polonês, Major Henryk Sucharski, mantivesse seu sabre como sinal de respeito por seu oponente (na foto ao lado o encontro de ambos).



Marechal Edward Rydz-Śmigły Comandante das forças polonesas. Retornou a Varsóvia em 1941, para participar da resistência como soldado comum.



Kawaleria polonesa. Os Ułan do 15o Regimento da cidade de Poznan, tal como seria em 1939.



Władysław Sikorski previu corretamente como seria a Blitzkrieg no seu livro sobre manobras em batalha: Przyszla wojna – jej możliwości i charakter oraz związane z nimi zagadnienia obrony kraju (War in the Future: Its Possibilities and Character and Associated Questions of National Defense). Teve uma participação proeminente na defesa de Varsóvia e foi o mais famoso Primeiro Ministro Polonês no exílio, além de herói da Guerra de 1920 contra a URSS. Morreu em circunstâncias misteriosas quando o B-24 em que viajava caiu, 16 segundos após decolar de Gibraltar, voltando de uma visita às tropas polonesas no Oriente Médio em 1943 (durante esse período três importantes chefes do governo polonês no exílio morreram em acidentes estranhos num curto espaço de tempo)



Pintura mostrando a derrubada de um He-111 por Władysław Gnys com seu P.11 em 1939. A primeira vitória ar-ar dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.


Música "Wróca chłopcy z wojny (Os rapazes voltarão da Guerra)"
Filme mostrando uma variedade de equipamentos poloneses de 1939: trem blindado, bombardeio PZL P.37, caça P.11, blindado 7TP, metralhadora Wz.30, Canhão Wz.36 entre outros.



Bibliografia

Jan Kieniewicz, Historia de PoloniaGeneral Heinz Guderian, Panzer Leader

S. Westphal, The German Army in the West

R. W. Cooper, The Nuremberg Trial

Raymond Cartier, La Seconde Guerre Mondiale

P. Schmidt, Hitler's Interpreter

A. Goutard, 1940 - La guerre des occasions perdues

Adam Zamoyski, The Polish Way: A Thousand-Year History of the Poles and Their Culture

Henrik Sienkiewicz, The Deluge

Jerzy Lukowski and Hubert Zawadzki, A Concise History of Poland

Martin Caidin, Me 109 O Caça Magistral

Um comentário:

Piloto disse...

Que matéria interessante, desmente muitos mitos sobre a resistência dos poloneses a invasão alemã. Parabens.